Radiofrequência no tratamento do olho seco: por que ela pode fazer tanta diferença?
- Dr Lennon da Costa

- 17 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de abr.
Você sente ardência, visão embaçada ao longo do dia, desconforto ao usar telas ou aquela sensação de areia nos olhos mesmo pingando colírio com frequência? Em muitos casos, o problema não está apenas na “falta de lágrima”, mas na má qualidade dela. E é justamente nesse ponto que a radiofrequência vem ganhando destaque no tratamento do olho seco associado à disfunção das glândulas de Meibomius.

O que são as glândulas de Meibômius?
As glândulas de Meibomius ficam nas pálpebras e produzem a camada oleosa da lágrima. Essa camada é essencial porque ajuda a espalhar melhor o filme lacrimal sobre os olhos e, principalmente, diminui a evaporação da lágrima. Quando essas glândulas estão obstruídas ou funcionando mal, a lágrima evapora rápido demais — e o resultado pode ser olho seco, irritação, ardência e oscilação da visão.

Quando o olho seco não é apenas “ressecamento”
Muita gente imagina que o olho seco acontece apenas porque o olho produz pouca lágrima. Mas uma parcela importante dos casos está ligada ao chamado olho seco evaporativo, frequentemente associado à disfunção das glândulas de Meibomius. Nessa situação, a pessoa até pode ter lágrimas, mas elas não permanecem tempo suficiente na superfície ocular para proteger, lubrificar e manter uma visão estável. É como ter um carro com combustível, mas sem tampa no tanque: o conteúdo está lá, mas vai embora antes da hora.
Onde entra a radiofrequência?
A radiofrequência é uma tecnologia que gera calor controlado na região periocular. No contexto do olho seco por disfunção das glândulas de Meibomius, esse aquecimento ajuda a fluidificar o meibum — a secreção oleosa que muitas vezes está espessa e parada dentro das glândulas — favorecendo sua liberação e melhorando a qualidade da lágrima. Em outras palavras: ela atua justamente em uma das causas do problema, e não apenas no alívio temporário dos sintomas.
Por que esse tratamento é importante?
A grande importância da radiofrequência está no fato de que ela pode tratar a base do olho seco evaporativo em muitos pacientes: o mau funcionamento das glândulas. Em vez de apenas “molhar os olhos” com colírios lubrificantes, a proposta é melhorar o funcionamento palpebral e a qualidade da camada lipídica da lágrima. Estudos clínicos iniciais mostraram melhora de sintomas, do tempo de estabilidade da lágrima e da função das glândulas após o tratamento com radiofrequência associada à expressão glandular, com manutenção do benefício por meses em parte dos pacientes.
O que os estudos mostram até agora?
Os dados atuais são animadores, mas pedem leitura cuidadosa. Um estudo prospectivo com radiofrequência associada à expressão das glândulas mostrou melhora clínica e alta satisfação dos pacientes, com efeitos adversos leves e transitórios, como vermelhidão temporária da pele ao redor dos olhos. Outro estudo observou que a combinação de radiofrequência com luz intensa pulsada e expressão glandular melhorou sinais e sintomas, embora os próprios autores ressaltem a necessidade de estudos randomizados para definir com mais clareza quanto desse resultado vem especificamente da radiofrequência. Em medicina, entusiasmo é ótimo; entusiasmo com critério é melhor ainda.
A radiofrequência substitui colírios e outros cuidados?
Não. O tratamento do olho seco deve ser individualizado, porque a doença tem várias causas e graus de intensidade. Em muitos casos, a radiofrequência faz parte de uma estratégia mais ampla, que pode incluir higiene palpebral, compressas mornas, lubrificantes oculares, controle ambiental, mudanças de hábitos diante das telas e, quando necessário, medicamentos específicos. Ou seja: ela não costuma ser “a única resposta”, mas pode ser uma peça muito valiosa no tratamento certo para o paciente certo.
Para quem esse tratamento pode ser especialmente útil?
A radiofrequência pode ser particularmente interessante para pessoas com sinais de disfunção das glândulas de Meibomius, blefarite posterior, rosácea ocular e sintomas persistentes de olho seco evaporativo, especialmente quando o alívio com medidas caseiras ou colírios é incompleto. Mas a indicação não deve ser feita “no chute”. O ideal é uma avaliação oftalmológica com exame da superfície ocular, das pálpebras e, quando disponível, das próprias glândulas.
Um cuidado moderno, mas com propósito
A radiofrequência representa um avanço importante porque amplia nosso olhar sobre o tratamento do olho seco. Ela reforça uma ideia fundamental: nem todo olho seco se resolve apenas com colírio. Quando o problema está nas glândulas de Meibomius, tratar essas estruturas pode mudar de forma significativa o conforto ocular e a qualidade de vida do paciente. E quanto mais cedo essa disfunção é identificada, maiores são as chances de preservar a saúde da superfície ocular.




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